Má distribuição de renda e falta de incentivo podem resultar em um povo violento e sem cultura
Segundo levantamento do IBGE em parceria com o Ministério da Cultura, 87% dos brasileiros nunca foram ao cinema. Mas isso não é o pior. Segundo a mesma pesquisa, 92% dos brasileiros jamais visitaram um museu. Mas restam duas perguntas: quais os reflexos da exclusão cultural e como fazer uma inclusão?
A professora Vânia da Silva, especialista em História da Arte e Mestra em Ciências da Comunicação, explica: "O maior problema da exclusão cultural é a falta de repertório, de cultura e de conhecimento. Diria, até, falta de educação. A inclusão cultural deveria começar na própria escola, tanto a particular como a pública. Não deveriam colocar tantos empecilhos para a criança, desde o início, visitar um museu ou ir ao teatro".
Segundo dados do IPEA, do IBGE e do Ministério da Cultura, somente 4,2% das prefeituras brasileiras têm estruturas específicas para gerir a cultura. Mais de 75% dos municípios não contam com centros culturais, museus, teatros e cinemas. Além disso, boa parte da população nunca acessou a internet.
A concentração da renda vai implicando mais e mais na questão do entretenimento, da diversão, dos hábitos e práticas e do lazer. Atualmente, a hierarquia econômica e a divisão de classes sociais significam, também, a divisão social do entretenimento e da diversão, pelo simples fato de que nunca antes a diversão esteve tão vinculada ao dinheiro, ao consumo. É a capacidade de gastar e de consumir que abrem as portas ao divertimento, o que discrimina o acesso social à prática. As coisas não se passavam assim, com tal clareza e intensidade há algumas décadas. Mas, hoje, a conexão está mais do que explícita: as vítimas da exclusão social estão automaticamente "barradas no baile".
Tudo hoje é pago. E aí está o problema. No Brasil, o sujeito de classe média é obrigado a bancar a escola particular dos filhos. Depois que as escolas públicas se mostraram inviáveis, não tem como custear, também, a diversão deles. Vez por outra, uma pizza, um show ou uma ida ao cinema. E este sujeito é, sem dúvida, um privilegiado, levando-se em conta a tremenda miséria nacional. Acontece que, ao contrário do que muitos pensam, diversão não é simplesmente uma coisa supérflua. É necessária a qualquer pessoa sã. Mas, como comida e educação vêm em primeiro lugar, adeus entretenimento.
A classe média, em regra geral, adota uma postura resignada. Sofre em silêncio sua frustração. Engole a amargura em drama contido e silencioso. Outros, não. Partem para exercer, de qualquer modo, o seu direito de viver plenamente, tal como a mídia o define: na base do exercício imprevisto de sua liberdade individual. Não pode consumir? Rouba, toma, extorque, expropria. É o seu modo de participar, também, ainda que do lado de fora da festa. E o que fazer diante disso? Prender essas pessoas, construir mais presídios ou levar realmente a sério, de uma vez por todas, o que já vai correndo o risco de se converter em clichê para sossegar consciências culpadas, que é a chamada "inclusão social"?
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